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Violências e drogas em meio escolar: avanços e desafios das Escolas Municipais de Belo Horizonte (1).

                                                           Ismayr Sérgio Cláudio (2)

O presente texto tem por objetivo apresentar o problema da violência escolar e suas relações com o clima escolar, espaços educativos, relações interpessoais e políticas públicas para seu enfrentamento. Além disso, a partir de dados, o trabalho enfatiza a temática das drogas e sua interrelação com a violência nas instituições de ensino. 1 – Contextualizando a violência escolar. Presente em todas as sociedades e instituições sociais, a violência é um fenômeno multicausal, complexo e que desafia governos e sociedades. Em ambiente escolar, suas diferentes formas e manifestações adquirem proporções desafiadoras em razão das características próprias do seu espaço e de seus sujeitos. Dessa forma, tanto a escola quanto o sistema de educação precisam reconhecer que sozinhos correm o risco de se tornarem incapazes de perceber todas as causas da violência e de formularem respostas adequadas a todas elas. Por isso, constituir redes de proteção social que envolva as instituições formais e informais presentes naquele território, afetadas de alguma forma pelas violências que permeiam aquela comunidade, se faz instrumento importante de mudança do quadro da violência local e de prevenção. Estas parcerias devem incluir famílias, outros órgãos públicos e instituições comunitárias em um planejamento comum que possibilite respostas diversas para esse complexo fenômeno. Como se vê, as redes de proteção social não são constituídas apenas pelos atores da escola, mas a escola pode ser a aglutinadora da rede na comunidade na qual se insere. Para além de evidenciar as ações de pessoas e de instituições daquele território, fortalecendo as iniciativas de cada pessoa ou instituição, através de ações coletivas e coordenadas, “as redes também podem ocupar papel de destaque na mediação do acesso a políticas e serviços do Estado, com importantes efeitos sobre o bem estar” (MARQUES, 2010: 47). Não há dúvidas quanto a afirmativa de que a violência extrapola a escola. Ela não está reduzida ao ambiente escolar, se faz presença cotidiana em todos os espaços e relações sociais. É preciso pensar o que tem produzido esta violência. Por que as sociedades contemporâneas têm construído tanta competitividade e individualismo, combustíveis para confrontos, conflitos e violências? O fenômeno da globalização trouxe, entre outros aspectos, a revolução tecnológica dos meios de comunicação que, por sua vez, transformou o planeta Terra em uma “aldeia global ”. Tal revolução tem produzido sociedades nas quais as crianças e jovens estão em permanente contato, em tempo real, com diferentes culturas, diferentes valores, retratados em uma série de informações que as famílias e escola não conseguem acompanhar. São crianças e jovens das chamadas gerações Y e Z, os nascidos a partir da década de 1980, a geração da internet, dos celulares e dos grandes saltos da evolução das tecnologias de comunicação e do círculo virtuoso da economia. Nessa sociedade da informação, completamente aberta, inúmeros e diferentes valores e contra valores permeiam a cotidianidade e ditam as regras da comunicação e das relações pessoais. Isto faz com que nem sempre as famílias e a escola possam ter a mesma velocidade para interferir no diálogo de crianças e jovens com as infinitas informações, conhecimentos, valores e contra valores que circulam na velocidade da luz, “causando nas pessoas a impressão de que muitas mudanças ocorreram de repente” (XIAOPING, 2011:13) Comportamentos individuais ou de grupos, tais como o vandalismo, as agressões físicas e verbais, o uso da linguagem rude, a extorsão, entre outros, são situações que hoje se colocam no bojo da violência também no ambiente escolar. Muitas dessas situações, até pouco tempo, não estavam incorporadas ao universo da violência. Eram tidas como comportamentos desviantes das relações interpessoais e/ou do campo da indisciplina escolar. No entanto, no contexto atual, necessário se faz focar o olhar e direcionar a atenção àquelas situações que antes não eram consideradas violências, mas que, em momentos de conflitos, podem constituí-la. Estar atento às relações interpessoais entre estudantes e educadores, estudantes e estudantes, educadores e educadores são um imperativo para a ação de todos os profissionais, estudantes e famílias, pessoas estas que constituem o ambiente da escola através de diferentes possibilidades de relações. Deve-se prestar atenção, em especial às situações nas quais as relações são distanciadas, interrompidas, comprometendo as amizades e ampliando as possibilidades dos conflitos, redimensionando a construção da alteridade, através da qual os diferentes atores se vêm e se reconhecem no olhar do outro. Estar atento ao outro, se relacionar com ele, constituir relações baseadas na palavra – que possibilita o verdadeiro diálogo - é uma ferramenta importante para se desvendar o fenômeno da violência escolar, buscar seus indícios, que vão sendo mensurados, checados, analisados e, assim, reveladas a pesquisadores, educadores, estudantes e famílias. Por isso, é preciso despertar múltiplos olhares, buscar indícios nas diversas situações que permeiam as relações interpessoais no contexto da convivência em ambiente escolar. Ou seja, que olhares há de se ter para se perceber os diferentes matizes do que se denomina clima escolar? Quais são os componentes do clima escolar? Porque o conceito de clima escolar está relacionado à eficácia escolar? De que modo a eficácia da escola se converte em bom clima escolar e, conseqüente, possibilita a redução da violência escolar, constituindo-se em instrumento de prevenção?

2 – O clima escolar e sua construção.

Por clima escolar entende-se a qualidade geral das relações internas na escola. A forma que a gestão da escola interfere na qualidade das relações é que se constituem diferenciais de qualidade do clima escolar. Ao se criar canais de participação abertos a todos os membros da comunidade escolar, como o Colegiado Escolar, Conselho de Pais, Grêmios Estudantis, dentre outros, a escola interfere positivamente nas relações internas; Ao realizar seminários ou congressos para tratar das questões de interesse daquela coletividade, a escola está interferindo diretamente no clima escolar; Ao se abrir para a comunidade na qual ela se insere, possibilitando diferentes ações aos finais de semana, a escola está garantindo qualidade no clima escolar e na relação com a comunidade em geral. Portanto, direcionar os olhares para se entender o clima escolar exige clareza quanto aos elementos que o compõem, traduzidos por indicadores entre os quais: “as realizações pedagógicas e administrativas, as atitudes dos alunos e da equipe pedagógica em relação à escola, o conjunto de relações estabelecidas, assim como as percepções de todos os seus integrantes acerca do trabalho pedagógico realizado pela instituição de ensino e sobre a participação que possuem nestes processos” (CUNHA; COSTA, 2009: 04). A atenção a esse conjunto de indicadores do clima escolar, entre outras percepções, poderá revelar a existência ou não de diferentes formas de violências naquele cotidiano escolar. Por exemplo, ao observar as atitudes dos estudantes e da equipe pedagógica, seu modo de interagir e se relacionar, a maior ou menor polidez das relações, as percepções oriundas dos comportamentos podem descortinar a existência ou não de rupturas da escola, com a escola ou com os valores escolares. E, nesse caso, haverá oportunidade de se trazer à tona as micro-violências que podem estar presentes nas relações entre instituição e sujeito ou nas relações interpessoais em meio escolar. Mensurar os níveis de qualidade das relações interpessoais, os laços sociais estabelecidos, a maior ou menor polidez no trato e na convivência em meio escolar dizem respeito ao monitoramento das manifestações de violências que, nesse contexto, é denominada por Debarbieux (1996) de incivilidades . Por isso, especialmente em meio escolar, a capacidade maior ou menor do uso da palavra, como fundamental instrumento de comunicação entre os indivíduos, se constitui em mecanismo importante das relações sociais e se faz institucionalizada em toda sociedade. Dessa forma, em ambiente escolar, para além das boas regras de convivência e comunicação estabelecidas pela sociedade, há que se ter normatização interna clara, através de um Regimento Escolar atualizado, em permanente construção. Afinal, como nos ensina Goffman (2010: 43): “o indivíduo semiconsciente de que um certo aspecto de sua atividade pode ser percebido por todos aqueles presentes, tende a modificar esta atividade, empregando-a com seu caráter público em mente. Às vezes, na verdade, ele pode empregar esses sinais somente porque eles podem ser testemunhas. E mesmo que aqueles em sua presença não tenham exatamente consciência da comunicação que estão recebendo, eles de qualquer forma sentirão algo fortemente incorreto se algo incomum for transmitido” Entretanto, hoje, a escola convive também com outros fenômenos sociais violentos como as pequenas gangues, aquelas que estão fora da escola, mas que, de certa forma, interferem na escola ou em suas ações. São fenômenos que não eram da escola, e que a escola passa a tê-los no rol de suas ocupações. Para melhorar a qualidade do clima da escola há que se considerar também a escola naquilo que lhe é próprio: a formação das crianças e jovens. A afirmação de que a violência, juntamente com a indisciplina, dentro das escolas comprometem a qualidade da aprendizagem é de conhecimento público. A disciplina, contudo, não pode ser considerada apenas um meio de se obter bons desempenhos. Afinal, a escola, para além de ensinar, deve educar para a cidadania.

3 – O espaço escolar.

Ao se discutir o clima escolar e a sua construção, há que se considerar como os diferentes sujeitos que convivem na escola vão dando forma e caracterizando o espaço escolar. O espaço físico é, para o ser humano, um espaço apropriado, organizado e habitado conforme seus desejos e interesses. Neste sentido, o espaço é uma construção social, cultural, política etc. E o espaço escolar é também um espaço construído, com fins específicos, por aqueles sujeitos que se encontram cotidianamente, se organizando como comunidade do conhecimento. A importância da apropriação consciente do espaço escolar como lugar do encontro, da convivência, da descoberta, do jogo de interrelações, da construção do lugar do direito a ter direitos é fundamental para que cada um possa se ver como ator e beneficiário dessa construção. Quando isso se dá de forma coerente, o vínculo entre sujeito e instituição se coloca e o sentido de pertencimento àquela comunidade-escola traz para aqueles sujeitos um sentimento de colaboração e de solidariedade que elevam sua auto-estima fazendo com que as relações se dêem em patamares e níveis mais iguais.

4 – O desafio das drogas em meio escolar.

Conforme foi tratado no início desse artigo, a escola, a partir da década de 1980 passou a ter de se haver com as novas formas de violências, aquelas que sequer eram percebidas por ela. Quanto maior o grau de vulnerabilidade social da comunidade, maior a sensação de insegurança dos membros da comunidade escolar. Conforme afirmação de Abramovay, “toda escola situa-se em um espaço e território cujas características afetam a sua rotina, as relações internas e as interações dos membros da comunidade escolar com o ambiente social externo” (ABRAMOVAY, 2002: 95). Quanto mais ausente for o poder público em um determinado território, maior será a sensação de insegurança da população e, consequentemente, maior a sensação de vulnerabilidade, o que afeta o comportamento das pessoas e das instituições ali presentes. Entre as violências que se localizam para além dos muros da escola, e com as quais terá que se haver está a violência produzida pelo tráfico de drogas. Que, por suas ações, produz violência no entorno da escola, dentro da escola e contra a escola. Na medida em que as ações do tráfico de drogas ganham espaços nas ruas e praças do bairro na qual a escola se insere, por si só, a escola começa a sentir as consequências dessa ação. A sensação de insegurança aumenta entre os membros da comunidade escolar, e, não raro, as ações do tráfico chegam ao interior da escola. Estas ações do tráfico são percebidas pela escola de diferentes modos, por exemplo, quando do aumento das violências no entorno da escola, quando o professor percebe o desânimo ou a agressividade do estudante em razão do envolvimento com o traficante, quando recebe a notícia de que aquele estudante fora assassinado, quando pessoas envolvidas com o tráfico de drogas ameaçam os membros da comunidade escolar ou invadem o espaço escolar. O que era inimaginável até a muito pouco tempo se tornou realidade, a violência chega ao interior das escolas, muitas vezes, através dos membros de sua comunidade escolar, e, em geral, pelos estudantes, quando se encontram sob influência do tráfico de drogas. Profissionais de escolas, estudantes e familiares relatam que traficantes circulam pelo entorno de escolas e, ainda que seja mais raro, chagam a entrar no interior de escolas. Diferentes pesquisas têm apontado esta realidade. Entre as quais podemos destacar a pesquisa denominada ‘Drogas na escola’, coordenada por Miriam Abramovay e Mary Garcia Castro, que pesquisaram 14 capitais brasileiras, e apontam os números da percepção do comércio e do consumo de drogas no entorno das escolas. “Considerando o universo amostrado de alunos, uma média de 33,5%, ou seja, um terço do total, afirma ter presenciado o consumo de drogas perto do ambiente escolar, o que corresponde a 1.551.609 estudantes”. (ABRAMOVAY; CASTRO, 2005: 92) Outra pesquisa , realizada entre estudantes de escolas públicas municipais em Belo Horizonte – MG e Presidente Prudente - SP, por pesquisadores vinculados à Universidade Estadual Paulista - UNESP, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, entrevistou 1880 estudantes de escolas municipais, com idades entre 14 e 24 anos. A pesquisa foi desenvolvida nos anos de 2006 e 2007, em escolas localizadas em áreas de alto índice de vulnerabilidade social (IVS) e baixo índice de qualidade de vida urbana (IQVU). Os estudantes responderam a um questionário de múltipla escolha com 109 perguntas que O objetivo foi conhecer o perfil biossociodemográfico dos estudantes, sua relação com a escola, o trabalho, a exposição ao risco, positividade pessoal, a sexualidade, as drogas, a saúde, a qualidade de vida, a proteção e a amizade, a fim de se perceber os fatores de risco e de proteção entre adolescentes e jovens de escolas públicas de Belo Horizonte e Presidente Prudente. Comparando os indicadores da pesquisa “Drogas na escola” com os indicadores sobre drogas da pesquisa “Comportamentos e fatores de risco e proteção na adolescência e juventude nos municípios de Presidente Prudente e Belo Horizonte”, percebem-se resultados muito próximos quanto ao comportamento dos adolescentes e jovens em ambientes de atuação do tráfico de drogas, conforme se pode verificar abaixo: “(...) apesar de grande parte dos adolescentes conviverem com a realidade do tráfico de drogas em suas comunidades (60,2%), uma minoria mencionou ter experimentado drogas ilícitas, tais como maconha (9,5%) e cocaína (4,7%). Pensamos que é possível sugerir que a convivência com o tráfico não necessariamente leva os adolescentes e jovens dessa pesquisa ao uso dessas substâncias” (CASTRO; LIBÓRIO, 2010:109) Quanto à relação com as drogas lícitas e ilícitas por estudantes da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, a pesquisa buscou perceber diferentes interações por parte dos estudantes, como se segue: · Quanto ao uso de drogas lícitas e ilícitas, 79,6% dos estudantes responderam já terem experimentado vinho, cerveja ou outra bebida alcoólica; 28,9% afirmaram já terem experimentado cigarro; 9,5% declararam terem usado maconha; 4,5% afirmaram o uso de cocaína; 12,9% usaram loló. · Ao analisar a periodicidade de uso das drogas lícitas e ilícitas pelos adolescentes e jovens respondentes da pesquisa, Castro e Libório verificam “que a frequência de uso diminui” para aqueles que já experimentaram “algum entorpecente em alguma época da vida”. (CASTRO; LIBÓRIO: 2010: 110). · Outro aspecto evidenciado pela referida pesquisa se refere ao uso de drogas lícitas e ilícitas por período prolongado, em média entre 20 ou mais dias ao mês. Bernardo Monteiro de Castro e Renata Maria Coimbra Libório demonstraram que “há um nível considerável de consumo de bebidas alcoólicas (12,1%) e cigarro (7,8%). Com relação às drogas ilícitas, verificamos que 1,9% dos participantes se referem ao uso com tal frequência”, o que pode caracterizar dependência química por parte os respondentes, estudantes de escolas da rede municipal de Belo Horizonte. Considerando os indicadores acima, os pesquisadores procuraram verificar se os adolescentes e jovens respondentes tentaram interromper o uso dessas drogas. Entretanto, o que se verificou foi que “quase a metade deles nunca tentou parar (46,4%). Dentre os que tentaram parar, destaca-se a indicação do álcool, seguido pelo cigarro comum” (CASTRO; LIBÓRIO, 2010:112). · Entre os que tentaram parar de usar drogas lícitas e ilícitas, 75% declararam que o fizeram sem buscar apoio de ninguém; 18,3% afirmaram que buscaram apoio em amigos; 10,7% recorreram ao apoio da família. “Podemos pensar que, em certas circunstâncias, as relações de amizade e vínculos familiares podem ter atuado como indicadores protetivos frente ao comportamento de risco representado pelo uso de drogas (embora em outras circunstâncias os amigos possam atuar como indicadores de risco)” (CASTRO; LIBÓRIO, 2010:112). Nesse contexto, os pesquisadores chamam a atenção para a não implicação das instituições que deveriam compor a rede de proteção social, enquanto fator protetivo dos estudantes que tentaram deixar o uso das drogas. O que demonstra a necessidade de se fortalecer e empoderar estas instituições através de ações em rede, possibilitando que elas se vejam, se reconheçam, partilhem conhecimentos, potencialidades e dificuldades, e executem ações consorciadas para atingirem melhores resultados. “As igrejas, instituições e hospitais ou postos de saúde compareceram como ajudando muito pouco os jovens nessas tentativas, levando-nos a pensar no quão frágil é o lugar ocupado por essas instituições como redes de apoio social (indicadores de proteção) para os jovens participantes desta pesquisa” (CASTRO; LIBÓRIO, 2010:112). Quanto aos motivos pelos quais os respondentes foram motivados a usarem drogas, 39,6% afirmaram não saber; 25,8% justificaram ser por gostar ou ser divertido; 15,6% declararam estar relacionado a problemas ou entristecimento; 15% indicaram outros motivos; e apenas 4.4% afirmaram ser por influência de amigos. Os pesquisadores quiseram saber também sobre os motivos que levam os respondentes a nunca usarem drogas. E, obtiveram os seguintes indicadores: para 45,3% deles o motivo é o cuidado com a própria saúde; 31% afirmaram ter “medo de viciar”; para outros 27, 7% é em razão da influência de suas famílias; 13,8% por causa da influência de amigos (as) ou namorados (as). “Interpretamos que os cuidados consigo mesmos são mais fortes na hora de decidir a não usar entorpecentes do que a influência de qualquer pessoa. Isso pode representar uma boa autoestima. Se for verdade, programas que investem na autoestima infanto-juvenil devem ser desenvolvidos com o intuito de prevenir o uso de drogas” (CASTRO; LIBÓRIO, 2010:112). Estes indicadores servem de alerta às escolas para que invista em conteúdos transversais que abordem temas relativos à saúde dos estudantes como forma de prevenção ao uso de drogas. Em relação ao envolvimento de usuários de drogas ilícitas com o tráfico de drogas, a pesquisa indicou que “quanto mais viciadora é a droga, menos ela é consumida por sujeitos envolvidos com o tráfico: dos que já experimentaram maconha, 37,5% se envolveram com o tráfico, número que decaiu para 31,3% no caso do uso da cocaína e para 9,7% no uso do crack. Estes indicadores devem apontar caminhos importantes para a construção de políticas públicas, programas, projetos e ações que possibilitem a construção de uma cultura de paz e direitos humanos para adolescentes e jovens em idade escolar.

5 – Considerações finais.

Uma vez que as violências apuradas no ambiente escolar têm causas diversas, é importante orquestrar um conjunto de políticas públicas, programas, projetos e ações que garantam um clima escolar favorável ao desenvolvimento das atividades escolares e possibilitem o fortalecimento (resiliência) dos estudantes e profissionais da educação para lidarem com os conflitos, de modo positivo, onde quer que eles se apresentem. Levando-se em consideração a discussão anterior e experiências exitosas encontradas nas escolas da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, pontuaremos, a seguir, algumas recomendações para a prevenção da violências e do uso de drogas em meio escolar: · A escola deve investir na formação da comunidade escolar, conforme as diretrizes dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que indicam que temas como violências e drogas devem se constituir em conteúdos transversais, se tornando compromisso de professores, coordenações pedagógicas e direções; · Se o medo é fator importante na instalação do clima de insegurança também em meio escolar, há que se investir em práticas que sejam integradoras, que formem coletivos comprometidos com a finalidade da instituição escolar. Esta é uma importante função da direção da escola que tem o papel de facilitar a discussão, motivar a busca de múltiplas estratégias e imprimir visibilidade às ações planejadas; · Estratégias importantes para a redução de violências em meio escolar, incluindo a temática do uso e/ou tráfico de drogas, é dar visibilidade aos atos violentos que ocorreram, encaminhando-os às autoridades competentes quando se tratar de atos infracionais, e, tão importante quanto, se deve romper com a prática e o discurso de vitimização; · A escola deve instituir, através de Regimento Escolar coletivamente construído, normas claras e coerentes que regulem o convívio escolar, garantam o direito a ter direitos, e institua mecanismos de garantia ao contraditório para os momentos de conflitos; · Comunidade escolar, especialmente direção e corpo docente devem estar atentos às situações que lhes permitam identificar os fatores de risco aos quais os estudantes possam estar inseridos para criação e implementarão ações de proteção; · A escola deve instituir um discurso que forneça subsídios aos adolescentes e jovens para o desenvolvimento de habilidades que possibilitem compreender suas motivações subjetivas e sociais para práticas violentas ou para o uso das drogas, bem como para que desenvolvam uma postura positiva diante da vida; · Instituir canais que possibilitem a participação das famílias nas atividades escolares de seus filhos: Fóruns de Pais, Colegiado Escolar, Assembléias Escolares; Encontros periódicos com professores, coordenação pedagógica, direção escolar, dentre outros, são ações de sucesso apontadas por escolas inovadoras; · Instituir instrumentos que possibilitem a prática da escuta dos adolescentes e jovens que têm na escola o lugar que lhes garante o uso da palavra e lhes ensinam a prática da escuta; · Implementar programas que garantam a participação da comunidade no espaço escolar, especialmente aos finais de semana, quando a rotina dos rituais formais da escola podem ser flexibilizados e a comunidade poderá, através do lazer, da cultura e da convivência, adentrar ao espaço da escola, seus saberes e conhecimentos locais; · Utilizar-se da metodologia de construção de redes a fim de se constituir redes de proteção locais, que garantam a construção da cultura de paz e de ambientes saudáveis à garantia da dignidade humana; · A instituição de programas, projetos e ações no campo da formação para a cidadania, de educação integral é garantia de espaços abertos à educação informal e para os direitos humanos, além de ampliar tempos e saberes através de diferentes percursos pedagógicos; · Investir na formação dos diferentes profissionais da escola, possibilitando uma educação permanente, voltada para a formação de múltiplos olhares, é caminho seguro para a prevenção e segurança dos estudantes e de toda a comunidade escolar; · O investimento em tecnologias de segurança, associadas às indicações anteriores, podem contribuir para se ter ambientes escolares mais seguros, onde seja possível educar para a cidadania, garantida através da conquista e re-conquista dos direitos humanos; · Em todos os momentos a escola deverá agir dentro dos limites de sua função social, e contar com as demais instituições que também têm responsabilidades em tratar da prevenção às violências, algumas das quais com poder de responsabilização; Uma vez que a escola sozinha não tem condições de implantar e executar todas estas ações, elas devem ser monitoradas pelo sistema de educação que investirá recursos e tecnologias que as garantam. Por fim, é a correlação entre cidadania e violência que determina em que medida os objetivos maiores do convívio social e a realização do potencial de cada um, o bem-estar dos integrantes da sociedade, se faz garantir. Por isso, a ação mais eficiente para a prevenção da violência e das drogas na sociedade e em meio escolar é a ampliação da cidadania como direitos de todos.

6 . REFERÊNCIAS

ABRAMOVAY, Mirian; RUA, Maria das Graças. Violências nas escolas. Brasília: UNESCO, Instituto Ayrton Senna, UNAIDS, Banco Mundial, USAID, Fundação Ford, CONSED, UNDIME. Brasília: Edições UNESCO, 2002. ABRAMOVAY ,Miriam; CASTRO, Mary Garcia. Drogas nas escolas: versão resumida. Brasília: UNESCO, Rede Pitágoras. Brasília: Edições UNESCO, 2005. CASTRO, Bernardo Monteiro de; LIBÓRIO, Renata Maria Coimbra. Risco e resiliência entre adolescentes e jovens de escolas públicas de Belo Horizonte. Curitiba: Editora CRV, 2010. CUNHA, Marcela Brandão; COSTA, Márcio da. O clima escolar de escolas de alto e baixo prestígio. In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO, 2009, Caxambu. Anais... Caxambu: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), 2009. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/32ra/arquivos/trabalhos/GT14-5645--Int.pdf>. Acesso em 10 set. 2011. GOFFMAN, Erving. Comportamento em lugares públicos: notas sobre a organização social dos ajuntamentos / Erving Goffam: tradução de Fábio Rodrigues Ribeiro da Silva. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. MARQUES, Eduardo. Redes sociais, segregação e pobreza em São Paulo. São Paulo: Editora UNESP; Centro de Estudos da Metrópole. São Paulo: Editora UNESP, 2010. XIAOPING, Wang. A segunda declaração: o próximo passo da evolução e o futuro da humanidade. Tradução Lúcia Helena Seixas. São Paulo: Cultrix, 2011.


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(1) Texto publicado na Revista Pensar BH/Política Social, nº 30 - novembro de 2011. Belo Horizonte.

Prefeitura de Belo Horizonte/Câmara Intersetorial de políticas Sociais.

1. Política Social 2. Administração pública 3. Prefeitura de Belo Horizonte.

(2) Mestre em Administração Pública - Gestão de Políticas Sociais pela Fundação João Pinheiro - FJP. Filósofo pela PUCMINAS. Gerênte de Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte

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